domingo, 19 de dezembro de 2010

Miniconto - Gaiola Dourada

Isabela não se embalava mais na cadeira-balanço que havia em seu quarto, que ficava no segundo andar da enorme propriedade vitoriana. Nem os livros, que sempre foram seus companheiros, a interessavam mais. Apenas ficava naquela cadeira pendurada no teto por uma corda, com o olhar perdido em seus sapatinhos de cetim e nos babados e rendas da saia longa e rodada.

Também havia um Canarinho que ficava preso, como um adorno, numa bela gaiola dourada próxima à sua janela. Mas, de uns tempos para cá, tal qual a sua dona, ele também não se embalava mais no poleiro. Apenas cantava uma canção tão linda quanto triste. O passarinho na gaiola canta de melancolia, para espantar a solidão e esquecer que está para sempre prisioneiro.

Mas, Isabela, não queria mais cantar como antes também fazia. Nem ir ao piano ou à harpa. Ela queria ver a Primavera, mas do seu quarto, com a janelinha tão pequena e gradeada, não dava para ver muita coisa, e só podia sentir o perfume se o vento levasse para ela.

Se ela pudesse se tornar muito pequena e criar asas, se pudesse se transformar numa fada, poderia escapar pela grade da janela. Mas isso nunca aconteceria.

Um dia, percebeu o Canarinho tão triste e calado que parecia morrer. E, num arroubo de rebelde ousadia, a mocinha pegou o passarinho, cochichou algo no ouvido dele e jogou-o pela janela. Ele voou gorjeando feliz, prometendo trazer novidades da Primavera.

FIM

Este continho tem, exatamente, 1400 caracteres, contando com os espaços, conforme fora pedido no concurso a que ele foi escrito (Gato Sabido, 2010). Apesar de haver 40 chances para ser selecionado, ele não foi :/

Nenhum comentário: